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Intercâmbio é para ricos?

Vida no Intercâmbio / Por Rosangela Miguel

Publicado em 17 de Abril de 2020

Tags: Imposto Intercâmbio Orçamento Qualidade de vida Trabalho

Por experiência própria, posso afirmar que Intercâmbio não é questão de dinheiro e sim de coragem. E vou explicar o porquê acredito nisso, com base no que vi e vivi.

Para alguns a ideia de fazer intercâmbio é algo com que sonham desde cedo, ou mesmo têm contato com familiares, amigos ou conhecidos que já fizeram ou fazem. Assim, essa ideia não é algo tão distante e, mesmo antes de fazer uma faculdade, essa pessoa vai se questionar sobre estudar ou não fora do país.

Mas como disse, essa é a realidade de alguns, enquanto para muitos outros não é bem assim. E por que não é?

Bom, vou exemplificar com o meu caso, mas que é parecido com o de muitas outras pessoas.

Eu nasci em uma família simples, no extremo da Zona Sul de São Paulo (Grajaú). Meus pais estudaram muito pouco, porque onde nasceram, interior de Pernambuco, o acesso à educação era muito difícil. E isso, claro, influenciou a visão deles de mundo e nem mesmo imaginavam que seus filhos fariam uma faculdade.

Enfim, o que quero dizer é que o meio em que a pessoa vive influencia totalmente em como ela enxerga a vida e as possibilidades. E eu fui seguindo, estudando e trabalhando e aos poucos, graças a pessoas maravilhosas que fui encontrando pelo caminho, fui ampliando minha visão sobre o que ainda poderia fazer. Então, fiz minha faculdade em um curso que minha mãe me perguntou “Mas existe trabalho para isso? ”, e até hoje meus pais não entendem minha formação (risos) que é em Relações Públicas (e amo demais essa profissão).

Até essa altura, em que me formei, não pensava em fazer intercâmbio. Continuei buscando crescimento profissional no mercado de trabalho. Até que depois de tudo isso, não estava satisfeita e precisava me sentir desafiada novamente. À essa altura tinha alguns amigos (exatamente 2, que me lembro) que estavam fazendo intercâmbio. E com isso comecei a cogitar a ideia de estudar fora do país. Mas como nunca tinha escutado falar disso dentro da escola, de casa ou entre amigos, ficava difícil idealizar como poderia realizar. Mas quando comecei a comentar com as pessoas e mostrar que tinha interesse em fazer, começaram a aparecer aqueles que me ajudaram e incentivaram.

Na época estava com um trabalho bacana, numa multinacional, com plano de saúde, vale transporte, vale refeição, etc. Dentro deste cenário meus pais e algumas pessoas próximas não entenderam nada. Como assim largar tudo que tinha conquistado e a estabilidade para ir para outro país e se sujeitar a até lavar privada? Como explicar? Não expliquei, só fiz!

Já estava com um salário que me possibilitaria conseguir guardar um dinheirinho para conseguir pagar meu intercâmbio. Então, terminando a faculdade, o foco foi guardar o máximo que pudesse e assim foi por pouco mais de um ano. Até que embarquei e fiquei na Irlanda por um ano e meio, trabalhando e estudando. Fiz muito chicken fillet, limpei muito chão, forno, lavei pilhas e pilhas de louça, tive que aprender o nome de mais de 30 cigarros, vender loteria, carregar muitas e sacos de lixo pesados e limpar muitas caixas de gordura também. E em meio a tudo isso, também aprendi inglês, visitei 7 países, fiz amigos, presenciei um furacão e uma nevasca, como não se via há mais de 30 anos na Irlanda. Foi uma loucura!

Conheci muita gente lá, muitos, mas muitos brasileiros. Com dinheiro, sem dinheiro, negro, branco, índio, velho, novo. Todos diferentes, mas todos com uma coisa em comum, CORAGEM.

Coragem se desprender (mesmo que temporariamente) do conhecido, da certeza de um teto, de falar e ser compreendido, de ter um emprego, do colo da mãe, da comida da vó. Cada um carregando uma saudade diferente, mas com o objetivo de viver algo diferente, de aprender e de aproveitar ao máximo essa experiência.


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